maio 28, 2010

O tempo e o homem

ANÁLISE DA PRIMEIRA PARTE, DO PRIMEIRO INSTANTE DO POEMA “A AMPULHETA” DO LIVRO DE SILVIO BARBIERI: TRÍADE


"Ampulheta é um poema que fala do tempo e
sua passagem, a transitoriedade dos dias e a inútil
tentativa de o homem tentar detê-lo. O tempo
e as circunstâncias é a temática predominante
da modernidade. Silvio Barbieri acompanha
essa tendência."
Francisco Aurélio Ribeiro
(Professor de Literatura do Departamento
de Letras UFES - 1992)


Vagarosamente perpassamos sem dar conta do tempo, mesmo que saibamos o quanto lutamos contra ele. Daí, entraremos ao admirável discurso poético do autor Silvio Barbieri, que escreve em seu livro “tríade” (1992), três instantes líricos: o primeiro “Ampulheta”, o segundo “Catarina” e o terceiro “Cantos do Frei Filipe”. Aqui, falaremos do primeiro instante, que para transmitir suas idéias e sensações, o poeta Silvio Barbieri utiliza do formato da ampulheta para dar um valor sonoro e forma para a poesia, que o primeiro eu-lírico mostra uma tentativa de não pensar naquilo que não acredita, uma espécie de morte nas idéias, pois “mais um projeto jaz no crânio que de tudo descrê”.

Entretanto, o libelo de sua obra, mais especificamente, de seu primeiro poema do livro Tríade, é marcado pela ansiedade do eu-lírico que se “deixa perder por uma outra via”, e que não demora muito em seus próprios pensamentos resultar e perceber que “tem imensas íris vermelhas”. O que é de tamanha fascinação é o que se mostra no percurso da poesia, como que um primeiro elemento não distancia do outro, temos, pois, a sensação de que a esfera negativa que é apontada pela ansiedade e o inicio de uma queda, é guardada e colocada “no cabide o já feito, e passa a uma outra esfera”. Abrindo, assim, um leque de elementos ligados a um só homem, seu delírio e incômodo por respostas e procuras por algo, aonde “vai a bairros e becos miseráveis”, “assiste a úmeros magros”, “príncipes e reis”, numa transposição árida, num drama que remete ao meio social, que se tornam inconscientes, àquele que faz parte da vida real e que não damos conta: o tempo.

E aí aparece, simultaneamente, ao campo da consciência e “interrompe a densa jornada a olhar lasso”, espaço, tempo e realidade não simultânea, prensando uma multiplicidade de sensações, no interior da ampulheta, para se entender, então, “que a morte não é o mal lá de fora, o tão mesquinho império podre do qual não há fuga”. O tempo, a vida “que pela ampulheta passa e repassa” condiciona o movimento translúcido do homem dialético ao infinito passado e presente.


A AMPULHETA

I

No chão queda o corpo em forma de t

Olhando o teto.

Mais um projeto

Jaz no crânio que de tudo descrê.

Mas, seu oculto olhar se distancia

da idéia em mente,

rapidamente

se deixa perder por uma outra via,

e anseia, e vagueja, e vaza o telhado...

E quanto mais

anda, mais ais

acumula no seu próprio bailado.

Pula, pisa forte destruindo telhas.

Dá chute, soco,

marcha. Num pouco

tempo tem imensas íris vermelhas...

Rodopia, dança, treme, decola,

voa...o mar corta

ao todo; aporta

e espreme em si mesmo uma cebola...

Mesmo assim não vem o choro que espera.

Enfim decide

pôr no cabide

o já feito, e passa a uma outra esfera

Vai a bairros e becos miseráveis,

com eles brinda...

E vê a infinda

chaga viva em seu país. Sua vez

dá a outros olhares iguais a si:

assiste a úmeros

magros, inúmeros,

empurrando dedos pedintes que

já não conseguem mais se firmar no ar.

Há bons larápios

com seus cardápios

de promessas, mentindo sem parar...

Príncipes e reis, pelo cheiro do ouro,

juntam aos cães

as próprias mães,

E nelas todo dia dão um coro.

Canalhas, tiranos, porcos senhores

pungindo gente,

tão pobre e crente,

até a morte com as mesmas dores.

E interrompe a densa jornada o olhar

lasso. Com sono volta ao seu dono

que, no quarto, ainda teima em cismar.

E, finalmente, se depara com

o antigo objeto

na poeira, ereto,

implacável, em seu solene tom.

Ah, perverso bicho de cara preta!

Prossegue alheia

a lerda areia:

escreve seu ritmo duro a ampulheta.

E o olhar ainda tonto do caminho

entende, então,

que a morte não

é o mal lá de fora, o tão mesquinho

império podre do qual não há fuga.

Todo o mal que

há por ali

não perturba tanto quanto essa pulga

que pela ampulheta passa e repassa.

O tempo é nosso

vexame, o poço

que traga a raça humana igual a caça.

Ó demônios em grão! Cai fino sal!

Por que diabo

não mostra o rabo

de vez essa tortura universal?

Um comentário:

Anônimo disse...

Ei nana, to retornando seu comentario no Canis Familiares! Fico feliz por ter curtido o nosso som. Se tiver afim, me add no msn, a gente troca uma ideia sobre o assunto! :) Roberto

robertogcfraga@hotmail.com