dezembro 19, 2010

Triste Fim de Policarpo Quaresma


Triste Fim de Policarpo Quaresma é um livro da fase pré-modernista, que tem como principal objetivo passar para o leitor o tema da luta entre a ideologia e a realidade encarnada pelo major Quaresma. A ficção e a realidade andam sempre juntas, em que o próprio Lima Barreto “esclarece o efeito estético e comunicativo que buscava ao promover esse adensamento extremo dos dados e circunstâncias mais marcantes do seu tempo” (SEVCENKO: 1985, p. 161). É dentro dessa linha que a obra Triste Fim de Policarpo Quaresma se insere nas obras pré-modernistas que de certa forma escapariam dos esquemas rígidos de tradição e problematizam a sociedade, como podemos perceber no trecho da primeira parte, capítulo “1. A lição de Viola”: “Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois que nem óleo de rícino receitava, mas como entendido em legislação telegráfica, por ser chefe de seção da Secretaria dos Telégrafos”. Aqui, o narrador lança um olhar crítico para o comportamento das pessoas que habitavam o subúrbio. Ou no trecho, logo em seguida: “Ricardo, depois de ser poeta e cantor dessa carioca aristocracia”, em que o narrador ironiza referindo-se a uma classe média que se imaginava aristocrata.
Antes de partirmos para a análise da trama é preciso que saibamos, ao ler Triste Fim de Policarpo Quaresma, que a obra é publicada no momento que o Brasil, nas últimas décadas do século XIX e início do século XX, vivia politicamente sob dois efeitos, num período de consolidação republicana, de fazendeiros e comerciantes ligados ao café, e desenvolvimento do capitalismo industrial em São Paulo e Rio de Janeiro. “ Essa exposição do presente como um vórtice de situações históricas exemplares trazia consigo a dupla conseqüência de sugerir mimeticamente a intensificação insólita dos processos de transformações contemporâneos à sua obra e de introduzir uma feição expressionista em suas imagens, pela exacerbação das suas próprias características.” (SEVCENKO: 1985, p. 161 e 162)
A narrativa perpassa todo o livro de maneira simples e objetiva, tendo como foco narrativo em terceira pessoa onisciente. É bom lembrar que Lima Barreto é um escritor ontológico, querendo buscar alguma resposta, ou uma verdade, então na sua narrativa, o personagem sofre mais, como podemos descrever no trecho da terceira parte, do capítulo “5. A afilhada.”: “Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera tal quimera?”. O narrador mergulha no interior de Quaresma e revela seus pensamentos. Ou outro trecho, que em tom de triste conclusão, resume a decepção de Quaresma, que viu frustrados todos os seus projetos: “Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções”, no mesmo capítulo.
Dentro da narrativa do livro é notado a caracterização de personagens de vários ambientes, “é praticamente todo o Rio de Janeiro do seu tempo que nos aparece agitado e tenso, condensado mais nos seus vícios do que nas suas virtudes. Todos os personagens trazem a marca do seu meio e constituem o objeto privilegiado da crítica social do autor. Nenhum aparece de forma inócua ou decorativa, todas concorrem para consagrar o destino “militante” da sua literatura (SEVCENKO: 1985, p. 162). Mas adiante de uma galeria de personagens é inteiramente importante destacar dois deles: o major Policarpo Quaresma e o menestrel Ricardo Coração dos Outros.


Policarpo Quaresma é o personagem –protagonista da história. É ele quem sonha por um Brasil acolhedor, amável. É nessa visão que ele cria uma idéia de reforma social, cujo objetivo era fazer o Brasil progredir. É preciso lembrar que Policarpo tem uma perspectiva não otimista a partir de um olhar de quem não está no poder.
O menestrel Ricardo Coração dos Outros é um personagem em destaque, pois seu relacionamento com Quaresma era tido como sincero, e o único que Quaresma tinha como talentoso, era violeiro e lhe dava lições de violão. Por ser humilde, e principalmente, por tocar um instrumento desprestigiado pelas classes mais altas, Ricardo Coração dos Outros “gozava da estima geral da alta sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos subúrbios” (trecho do capítulo “1. A lição de violão, da primeira parte do livro”).
O livro divide-se em três partes, que correspondem as reformas propostas pelo Quaresma para salvar o Brasil. A primeira é a reforma pela cultura, sob um olhar crítico, Quaresma queria salvar o Brasil por uma reforma de costumes. Quaresma escrevera um requerimento para a Câmara pedido “que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani, como língua oficial e nacional do povo brasileiro” (trecho da primeira parte, capítulo “4. Desastrosas Consequências de um Requerimento”), ele pensava então, que os brasileiros deviam se expressar como os primitivos tupinambás, e não como os europeus, e em detrimento de todo seu esforço envolvendo até as autoridades, Quaresma foi internado. Ao sair de lá, ele pensava em outra solução para o Brasil: a reforma pela agricultura, saindo do espaço urbano e entrando no rural. Mas não passou de desventuradas experiências junto à terra, já que em pouco tempo se viu vencido pela peste, pela mesquinharia da política local, etc. Enfim, depois de perder o que investira, resolve voltar ao Rio de Janeiro. “Os seus olhos brilhavam de esperança. Despediu os empregados. Foi ao interior da casa, nada disse à irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação. Chegou ao telégrafo e escreveu: “Marechal Floriano. Rio. Peço energia. Sigo já. Quaresma”” (trecho da segunda parte, capítulo “5. Trovador”). A terceira parte constitui o final do livro, que descreverá o momento representado pela Revolta da Armada, que então eclodirá no país. “Através desse método contundente, o autor podia transmitir direta e rapidamente aos seus leitores a sua concepção e o seu entendimento relativo aos eventos que o circundavam” (SEVCENKO: 1985, P. 163). Nesse sentido, Quaresma alistou-se no exército a favor de Floriano Peixoto e ali mesmo, em seu contato com Floriano, fica desiludido, pior a situação ficou depois do episódio da morte de Ismênia: Quaresma foi percebendo aos poucos sua ingenuidade e, ao mesmo tempo, sua exposição ao ridículo.

Ingenuidade, acredito eu, de quase todos os jovens que querem mudar o mundo, não por crer que pode fazer alguma coisa por ele, mas por acreditar e se iludir em determinadas situações, como nosso querido Quarema.)

Referências:
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão. Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
BARRETO, Lima. Triste Fim de Policarpo Quaresma. 23. ed. São Paulo: Ática, 2001.

6 comentários:

Thiago Quintella de Mattos disse...

Sensacional artigo Nana! Muito bom rever análises de Lima Barreto! Esta e todas suas obras são brilhantes, demais. necessárias para o Brasil, para entender o Brasil que somos até hoje. O Sevcenko é muito bom tb! Conheci-o em um seminário uma vez, tive o prazer de agradecê-lo por tudo hehe! Quanto ao Policarpo, eu gosto da passagem que ele escreve ao ministério em Tupi-guarani e chefe acha que é grego! que fina ironia!

Duda Sansão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Duda Sansão disse...

Eu adorei!!! Apesar de ter apenas 13 anos, meus pais me incentivam bastante a ler, e Triste Fim de Policarpo Quaresma foi a primeira literatura brasileira que li, aos 10 anos. Tenho um blog também, que vou voltar a escrever nele esse ano. Ainda estou editando, mas o link é: segredosdaduda.blogspot.com!
bjos e abços,
Duda

Paula Fraga disse...

Sua análise sobre o livro está muito boa,você deixou bem claro que Quaresma era um patriota sonhador. Mesmo assim, achei o livro um pouco cansativo, que não deixou de passar a mensagem da situação vivida na época.

jane smith disse...

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